Por Mariana Silva | Hephiro Pets | Fevereiro 2026
Ansiedade de separação foi o assunto sobre o qual mais recebi mensagens no Instagram nos últimos seis meses.
Não de tutores de répteis — de tutores de cães. Pessoas desesperadas às 7h da manhã porque o vizinho reclamou dos latidos. Pessoas chegando do trabalho e encontrando o apartamento destruído pela terceira vez na semana. Pessoas que pararam de sair de casa porque a culpa era grande demais.
A Camila — a mesma do Mel, o golden retriever — me ligou em janeiro desse ano num estado que eu nunca tinha visto ela. Mel destruiu o sofá novo. Ela saiu por três horas para uma consulta médica.
“Mariana, eu não sei mais o que fazer. Já tentei de tudo. Brinquedo, osso, música, TV ligada. Nada funciona. Será que ele me odeia?”
Ele não te odeia, Camila. Ele te ama demais. E não sabe lidar com isso ainda.
Não tenho cachorro — os meus são todos répteis. Por isso, fui pesquisar a fundo para ajudá-la de verdade. Passei semanas lendo estudos, consultei a médica veterinária comportamental Dra. Renata aqui em Goiânia, e organizei tudo que aprendi neste guia. Além disso, acompanhei o processo do Mel por três meses até ele melhorar.
O que funcionou — e o que não funcionou — está tudo aqui.
O Que Você Vai Encontrar Neste Guia
- O que é ansiedade de separação de verdade — não achismo
- Como diferenciar bagunça de comportamento ansioso
- Causas reais — por que alguns cães desenvolvem e outros não
- Ansiedade de separação: sinais que aparecem antes, durante e depois
- O que funciona: protocolo real de dessensibilização
- O que não funciona — e por que muitos tutores ficam em loop
- Quando precisa de veterinário comportamental
1. O que é ansiedade de separação em cães de verdade?
Não é manhã. É Neurologia.
Ansiedade de separação é uma condição comportamental em que o cão experimenta angústia real quando separado das pessoas com quem tem vínculo. Por isso, não é birra, não é falta de adestramento e não é punição ao tutor por sair.
O que acontece neurologicamente é a ativação do sistema de resposta ao estresse — cortisol elevado, frequência cardíaca aumentada, estado de alerta máximo. Além disso, o cão não tem a capacidade cognitiva de raciocinar “meu tutor volta em três horas”. Para ele, a separação pode parecer permanente.
Portanto, punir o cão pelo que fez durante a ausência não funciona. Quando o tutor chega, o cão já não associa o comportamento passado à punição presente — ele só entende que o tutor chegou irritado. Dessa forma, a punição aumenta a ansiedade em vez de resolver.
Ansiedade de Separação vs. Falta de Enriquecimento
Esse é o diagnóstico que mais confunde tutores — e que muda completamente a abordagem.
Cão com falta de enriquecimento destrói coisas por tédio. Geralmente de forma mais seletiva — mordeu o sapato, rasgou um papel, virou o lixo. Além disso, fica calmo quando o tutor sai, não monitora a porta, come normalmente.
Cão com ansiedade de separação mostra sinais de angústia desde antes do tutor sair. Por outro lado, o padrão de destruição é mais caótico — portas arranhadas, objetos com cheiro do tutor destruídos, fezes ou urina fora do lugar mesmo em cão treinado.
A distinção importa porque as soluções são diferentes.

“Antes: segue você pela casa, treme quando você pega a chave. Durante: arranha porta, destrói objeto com seu cheiro. O padrão conta a história. 🔍” –>
2. Ansiedade de Separação: Causas e Fatores de Risco
Por que alguns cães desenvolvem e Outros Não
Não existe uma causa única para ansiedade de separação. Na prática, é uma combinação de fatores — genéticos, histórico de vida e rotina atual.
Raças mais predispostas: cães desenvolvidos para trabalho próximo ao humano têm maior tendência. Golden retriever, Border Collie, Labrador, Cocker Spaniel e Vizsla aparecem com frequência nos estudos. Por isso, isso não significa que todas essas raças vão desenvolver — mas que o risco é maior.
Histórico de abandono ou múltiplos lares: cão que já passou por separação traumática tem o sistema de apego mais sensível. Além disso, adoções de cães adultos com histórico desconhecido têm mais casos.
Superapego desenvolvido pelo tutor: paradoxalmente, tutores muito presentes criam cães mais vulneráveis à separação. Cão que nunca ficou sozinho por mais de uma hora na vida adulta não tem referência de que o tutor volta.
Mudança abrupta de rotina: voltada ao trabalho presencial após longo período remoto, mudança de cidade, novo bebê, perda de outro animal da casa. Contudo, qualquer ruptura de rotina pode ser o gatilho para cão já predisposto.
O Caso do Mel
O Mel cresceu durante a pandemia. Camila trabalhou de casa por dois anos com ele no colo, literalmente. Quando ela voltou ao escritório em março de 2024, o Mel nunca ficara sozinho por mais de uma hora na vida adulta. Portanto, a ansiedade de separação dele não foi surpresa — foi consequência direta da história dele.
Não foi culpa da Camila. Foi falta de informação no momento certo.
3. Sinais de Ansiedade de Separação — Antes, Durante e Depois
Antes da saída do Tutor
Esses são os sinais que a maioria dos tutores ignora — e são os mais importantes para o diagnóstico.
| Sinal | O que significa |
|---|---|
| Segue o tutor por toda a casa. | Monitoramento de apego — hipervigilância |
| Treme ou ofega quando vê a chave/bolsa | Associação de objetos com separação |
| Tenta impedir a saída fisicamente. | Comportamento de bloqueio — angústia real |
| Para de comer quando o tutor se prepara. | Inibição do apetite por estresse |
| Vocaliza (late, chora) antes de ficar sozinho. | Vocalização de angústia |
Durante a Ausência
Câmera de monitoramento é a melhor ferramenta para observar esse período. Além disso, comportamentos típicos incluem: vocalização contínua nos primeiros 30 minutos, destruição de objetos com cheiro do tutor, arranhadura em portas e janelas, micção ou defecação fora do lugar em cão treinado.
Por outro lado, alguns cães ficam completamente imóveis e em estado de shutdown — deitados, sem comer, sem brincar. Isso não é calma. É dissociação por sobrecarga de estresse.
Depois da chegada do tutor.
Recepção exageradamente intensa — saltar, latir, rodopiar — que dura mais de 5 minutos indica cão que estava em estado de estresse alto durante a ausência. Além disso, o cão que urina de excitação na chegada frequentemente tem nível de arousal elevado cronicamente.

“Pegar a chave. Sentar. Não sair. Repetir 20 vezes. Parece bobo — e é exatamente o que quebra a associação que mantém a ansiedade de separação ativa. 🔑” –>
4. O que funciona: Protocolo Real de Dessensibilização
A Lógica do Tratamento
Ansiedade de separação não tem solução rápida. Por isso, qualquer promessa de “resolva em 3 dias” é sinal de alerta. O que funciona é a dessensibilização gradual — expor o cão progressivamente a ausências curtas, construindo a referência de que o tutor sempre volta.
Além disso, o objetivo não é ensinar o cão a “aguentar” a separação. É reestruturar a associação emocional que ele faz com a saída do tutor — de ameaça para evento neutro.
Passo 1 — Dessensibilizar os Gatilhos Pré-Saída
Comece antes de sair. Pegue as chaves. Sente-se de volta no sofá. Repita 15 vezes no mesmo dia sem sair. Por isso, o objetivo é quebrar a associação entre chave/bolsa e separação.
Depois, pegue a chave, vá até a porta, volte. Pegue a chave, abra a porta, feche, volte. Além disso, faça isso em momentos aleatórios do dia — não só quando for realmente sair.
Passo 2 — Ausências Mínimas com Retorno Garantido
Saia por 30 segundos. Entre. Ignore o cão por 2 minutos — sem festa, sem culpa, sem drama. Depois, cumprimente normalmente.
Contudo, a tentação de compensar a culpa com festa intensa na chegada aumenta o contraste emocional. Saída neutra, chegada neutra. Dessa forma, a separação perde intensidade emocional progressivamente.
Passo 3 — Aumentar Gradualmente
Só aumente o tempo quando o cão estiver visivelmente calmo no tempo anterior. Trinta segundos → 2 minutos → 5 minutos → 15 minutos → 30 minutos. Além disso, cada etapa pode levar dias ou semanas — dependendo do cão.
Por outro lado, pular etapas por impaciência reinicia o processo. O protocolo respeita o tempo do cão, não a pressa do tutor.
O Que Ajuda Como Suporte
Kong recheado congelado: alimento de alto valor disponível só durante a ausência — cria associação positiva com a separação. Mel passou a adorar quando a Camila saía porque era hora do Kong de pasta de amendoim congelada.
Cama ou espaço próprio com cheiro do tutor: conforto olfativo durante a ausência. Além disso, peça de roupa usada na cama funciona bem.
Música ou ruído branco: ambiente completamente silencioso amplifica qualquer som externo e mantém o cão em estado de alerta.
Para entender como a ansiedade de separação se conecta com o comportamento do cão de forma mais ampla — incluindo outros gatilhos de estresse —, leia nosso Guia Definitivo de Comportamento Animal. Além disso, o Guia Completo de Cuidados com Pets tem uma seção completa sobre como a rotina diária impacta diretamente o nível de ansiedade do animal.
5. O Que Não Funciona — E Por Que Muitos Tutores Ficam em Loop
As soluções que parecem lógicas, mas Não Resolvem
Punição depois da destruição: já expliquei a razão neurológica. Por isso, além de não funcionar, piora — aumenta o estado de estresse crônico do cão.
Outro cão como solução: funciona em alguns casos — especialmente se a ansiedade de separação for direcionada a qualquer presença, não exclusivamente ao tutor. Contudo, cão com apego exclusivo ao tutor geralmente ignora o outro cão durante a ausência. Antes de adotar um segundo animal como solução, verifique com câmera se o cão se acalma com presença de outros animais.
Deixar TV ou rádio ligado sem progressão: reduz levemente o silêncio, mas não trata a causa. Além disso, sem o protocolo de dessensibilização junto, é só ruído de fundo para um cão ainda ansioso.
Ignorar completamente: alguns conteúdos recomendam ignorar o cão antes de sair e após chegar por períodos muito longos. Por outro lado, ignorância total sem trabalho comportamental paralelo não ensina o cão — só frustra ambos.
6. Quando a Ansiedade de Separação Precisa de Veterinário.
Sinais que Indicam Necessidade de Apoio Profissional.
Alguns casos de ansiedade de separação são severos o suficiente para necessitar de intervenção veterinária — e não há nada de errado com isso.
Busque um veterinário comportamental se: o cão se machuca durante as ausências (arranha até sangrar, bate a cabeça), se a destruição é extrema e acontece nos primeiros minutos após a saída, se o protocolo de dessensibilização foi seguido por 4 semanas sem nenhuma melhora, ou se o cão apresenta outros sinais de ansiedade generalizada além da separação.
Além disso, medicação ansiolítica prescrita por veterinário pode ser necessária em casos severos — não como solução única, mas como suporte para tornar o protocolo comportamental possível. Contudo, medicação sem trabalho comportamental paralelo raramente resolve sozinha.

“Cama própria, Kong por perto, postura relaxada. Três meses de protocolo. O Mel chegou aqui — e a Camila voltou a sair de casa sem culpa. 🐕💛” –>
O Mel Três Meses Depois
Camila me mandou um vídeo em abril.
Ela saiu para trabalhar às 8h. Câmera ligada. O Mel foi até a porta, farejou, voltou para a cama dele, pegou o Kong e ficou quieto por quarenta minutos.
Ela chorou assistindo. Eu também quase chorei quando ela me mandou.
Não foi rápido. Foram três meses de protocolo, duas consultas com a Dra. Renata, um Kong destruído e muita paciência. Por outro lado, o sofá novo está intacto até hoje.
Ansiedade de separação tem tratamento. Leva tempo — e respeito pelo processo do animal. Mas tem.
⚠️ Aviso importante: Não sou veterinária. Pesquiso comportamento animal há anos como tutora e escritora, e acompanhei o caso do Mel de perto. Mas este conteúdo não substitui avaliação profissional. Para casos severos de ansiedade, procure sempre um veterinário comportamental.
Sobre a Autora
Mariana Silva mora em Goiânia-GO e é tutora do Spyke (dragão-barbudo), Luna e Sol (geckos-leopardo) e Jade (jabuti piranga resgatada). Criou o Hephiro Pets para falar sobre criação responsável de pets com linguagem real — sem textão de manual e sem julgamento.
Pesquiso muito. Erra às vezes. Conta tudo aqui.
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Publicado em fevereiro de 2026 | Hephiro Pets