Por Mariana Silva | Hephiro Pets | Fevereiro de 2026
O comportamento felino do meu vizinho Lucas me foi apresentado de um jeito muito específico.
Ele bateu na minha porta numa quarta-feira de julho de 2024 com o celular na mão, mostrando um vídeo. No vídeo, a gata dele — uma SRD laranja chamada Gengibre — estava empurrando deliberadamente um copo d’água da mesa. Devagar. Com um olhar completamente calculado. O copo caiu. Ela olhou para baixo, depois para o Lucas, e saiu andando.
“Mariana, ela me odeia. Tenho certeza. O que eu faço?”
Não, Lucas. Ela não te odeia. Mas o comportamento felino dela estava te dizendo algo — e você não estava ouvindo.
Passei a tarde seguinte explicando o que sei sobre gatos. Não tenho gato — meus bichos são o Spyke, a Luna, o Sol e a Jade. Por outro lado, pesquiso comportamento animal há anos e entendo o suficiente para desmistificar o que a maioria das pessoas chama de “loucura de gato”. Além disso, esse assunto aparece tanto nos comentários do Hephiro que virou post obrigatório.
Este guia é o que expliquei para o Lucas. Com sorte, vai te poupar de achar que seu gato te odeia.
O Que Você Vai Encontrar Neste Guia
- Por que entender o comportamento felino muda tudo.
- Os 8 comportamentos mais confusos — explicados
- Linguagem corporal: o que o corpo do gato está dizendo
- Comportamento felino problemático: quando se preocupar
- Como melhorar a comunicação com seu gato na prática
1. Por que o Comportamento Felino Parece Inexplicável (Mas Não É)
Gatos e cães foram domesticados de formas completamente diferentes. Cães convivem com humanos há mais de 15 mil anos em relação de trabalho e dependência mútua. Gatos, por outro lado, se associaram a humanos muito mais recentemente — e de forma muito mais independente. Eles chegaram perto porque queriam. Não porque precisavam.
Por isso, o comportamento felino não segue a lógica de “agradar o tutor” que os cães geralmente seguem. Gatos se comunicam em termos de território, segurança, recursos e confiança. Além disso, grande parte do que parece “estranho” ou “agressivo” é, na prática, comunicação que não foi entendida.
O problema não é o gato. É que ninguém ensina a língua.

“Esses dois estados têm sinais claros. Aprender a diferença muda completamente a convivência. 🐱” –>
2. Os 8 Comportamentos Felinos Mais Confusos — Explicados
Empurrar objetos da mesa
Esse foi o comportamento da Gengibre que deixou o Lucas em pânico. Na prática, comportamento felino como esse tem pelo menos duas explicações possíveis.
Primeira: gatos testam objetos com a pata antes de interagir — é instinto de caça. Objetos que se movem são interessantes. Além disso, quando cai e você reage, o gato aprendeu que aquela ação gera resposta do tutor. Assim, ele repete.
Segunda: pode ser pedido de atenção. Se o gato percebeu que empurrar o copo faz você levantar e olhar para ele, ele vai usar esse recurso. Por isso, ignorar completamente na hora e brincar com ele em outros momentos resolve na maioria dos casos.
Morder durante o carinho
Você está acariciando o gato, ele parece estar amando, e de repente — mordida. Sem aviso aparente.
Na verdade, houve aviso. O comportamento felino de estimulação excessiva tem sinais que aparecem antes da mordida: cauda batendo no chão, orelhas levemente inclinadas para trás, pelo arrepiado na base da cauda. Por outro lado, muita gente não observa esses sinais porque está focada no carinho, não no gato.
A mordida não é agressão. É limite. Respeite e pare o carinho antes que ele chegue a esse ponto.
Trazer “presentes” (presas ou brinquedos)
Comportamento mais comum em gatos com acesso à área externa. Por isso, alguns tutores ficam horrorizados quando o gato aparece com um lagarto ou pássaro. Na prática, é instinto de caça combinado com comportamento social — gatos que confiam no tutor às vezes “ensinam” a caçar trazendo presas.
Não é crueldade. É confiança. Agradeça diplomaticamente e siga em frente.
Vocalização noturna
Gato miando muito de madrugada tem causas diferentes dependendo da idade e da situação. Filhotes recém-adotados: adaptação ao ambiente novo. Gatos adultos não castrados: comportamento sexual. Além disso, gatos mais velhos podem vocalizar por confusão cognitiva ou dor — nesse caso, consulta veterinária é indicada.
O comportamento felino de vocalizar excessiva e repetidamente em qualquer horário merece investigação se começou do nada. Mudança súbita de comportamento é sinal de alerta em qualquer animal.
Aqui, uma pausa narrativa que o Lucas precisou ouvir também.
Depois que expliquei esses comportamentos, ele ficou quieto por uns segundos e disse: “Então, quando ela senta no meu notebook, é porque quer atenção, não porque quer me atrapalhar?”
Sim, Lucas. Exatamente isso.
Cavar antes de comer
Alguns gatos coçam o chão ao redor da tigela antes ou após comer. Parece estranho. Porém, é comportamento felino instintivo de esconder sobras de alimento — herança do comportamento de esconder presas na natureza para comer depois. Não significa nada de errado.
O “presente” de sentar nos seus pertences.
Caixa nova no chão? O gato vai sentar nela em 30 segundos. Roupa dobrada? Território do gato agora. Laptop aberto? Cadeira do gato.
Além de ser instinto territorial, o comportamento felino de sentar nos pertences do tutor está associado ao cheiro. Os itens com cheiro do dono são reconfortantes — especialmente em momentos de insegurança. Por outro lado, se o gato está marcando com urina, isso é sinal de estresse territorial e merece atenção.
Olhar fixo para o nada.
Paredes, cantos, pontos no teto. Gatos enxergam em espectros de luz diferentes dos humanos — além disso, a acuidade visual deles para movimento é muito superior à nossa. Portanto, na maioria das vezes, o gato está vendo um inseto pequeno, reflexo de luz ou sombra em movimento que você simplesmente não percebe.
Se o olhar fixo vier acompanhado de vocalização ou comportamento desorientado, merece observação veterinária.
Amassar (“fazer biscoito”)
O comportamento felino de amassar superfícies com as patas — aquele movimento de sova que os gatos fazem em cobertores ou no seu colo — vem da infância. Filhotes amassam o ventre da mãe para estimular a produção de leite. Dessa forma, quando um gato adulto faz isso com você, é sinal de conforto e confiança profunda.
É o maior elogio que um gato pode te dar. Receba com dignidade.
3. Linguagem Corporal: O Que o Corpo do Gato Está Dizendo
| Sinal | O que significa |
|---|---|
| Cauda erguida com ponta curvada. | Cumprimento amigável — o gato está feliz em te ver |
| Cauda baixa ou entre as pernas. | Medo ou submissão |
| Cauda inchada e ereta | Medo intenso ou agressão defensiva. |
| Orelhas para frente | Curioso e alerta |
| Orelhas para os lados (“helicóptero”) | Irritado ou estimulado demais |
| Orelhas totalmente para trás | Medo ou agressão — cuidado |
| Piscada lenta | Confiança e afeto — é o “te amo” dos gatos |
| Barriga exposta | Pode ser convite ao carinho — mas não sempre |
| Roçar o rosto em você. | Marcação de território afetiva — você é do clã dele |
A barriga merece explicação separada. Ao contrário dos cães, barriga exposta em gato não é necessariamente convite para afago. Em alguns gatos, é — em outros, é posição de defesa (as quatro patas livres para arranhar). Além disso, cada gato tem personalidade própria. Portanto, observe a reação individual antes de assumir.

“Quando ele faz isso no seu colo, é o maior elogio que um gato pode dar. Não se arruine levantando. 🍪”
4. Comportamento Felino Problemático: Quando Se Preocupar de Verdade
Nem todo comportamento felino incomum é “coisa de gato”. Alguns sinais merecem atenção veterinária sem demora.
Mudança súbita de comportamento é o sinal mais importante. Gato que sempre foi sociável e de repente se esconde, gato que nunca foi agressivo e começa a morder, gato ativo que fica prostrado — mudanças bruscas sem causa aparente podem indicar dor, doença ou problema neurológico.
Vocalização excessiva e persistente em gatos que não tinham esse padrão pode indicar dor, hipertireoidismo ou, em gatos mais velhos, síndrome cognitiva felina.
Eliminação fora da caixa de areia é um dos comportamentos mais mal interpretados. Tutores costumam achar que é birra ou vingança. Na maioria dos casos, porém, é infecção urinária, cálculo renal ou dor ao urinar. Por isso, consulta veterinária antes de qualquer conclusão comportamental.
Agressão repentina e intensa sem provocação identificável merece investigação — especialmente se o gato nunca demonstrou esse padrão antes.
⚠️ Não sou veterinária. Pesquiso muito, convivo com pets há anos e errei bastante pelo caminho. Este conteúdo é educativo — não substitui avaliação profissional. Para mudanças de comportamento que preocupam, consulte sempre um veterinário ou etologista felino.
5. Como Melhorar a Comunicação com Seu Gato na Prática.
Entender o comportamento felino é metade da equação. A outra metade é mudar como você responde.
Pisque devagar para ele. Olhar fixo direto nos olhos é ameaça na linguagem felina. Piscada lenta é o oposto — sinal de paz. Portanto, quando seu gato te olhar, pisque devagar e espere. Se ele devolver a piscada, você acabou de ter uma conversa.
Deixe-o cheirar sua mão antes de tocar. Especialmente com gatos novos ou desconfiados. Mão estendida, palma para baixo, espera. Se ele se aproximar com o focinho, pode acariciar. Se recuar, respeite.
Respeite os sinais de limite. Cauda batendo, orelhas para trás, pelo arrepiado — quando aparecerem, pare o que estiver fazendo. Além disso, gatos que têm seus limites respeitados consistentemente ficam mais confiantes e afetuosos com o tempo.
Brinque todos os dias. Pelo menos 15 a 20 minutos de brincadeira ativa com varinha, laser ou brinquedo de caça. Comportamento felino problemático, como agressividade redirigida, destruição e vocalização excessiva, muitas vezes é simplesmente energia sem escoamento.
Para entender como o ambiente influencia diretamente no comportamento do seu gato — e como o enriquecimento ambiental previne problemas —, leia nosso Guia Completo de Comportamento Animal. Além disso, se você tem gatos e quer aprofundar em cuidados específicos da espécie, o post do Gato Siamês tem uma seção detalhada sobre comunicação felina dessa raça específica.

“Quinze minutos de brincadeira por dia resolvem mais problemas de comportamento felino do que qualquer produto caro. Juro. 🪶” –>
O Lucas Entendeu
Duas semanas depois da nossa conversa, ele me mandou um vídeo.
A Gengibre estava no colo dele, amassando o moletom, olhos semifechados. Ele estava fazendo a piscada lenta para ela. Ela devolveu.
“Mariana, ela me ama.”
Ela sempre amou Lucas. Você só aprendeu a língua.
Sobre a Autora
Mariana Silva mora em Goiânia-GO e é tutora do Spyke (dragão-barbudo), Luna e Sol (geckos-leopardo) e Jade (jabuti piranga resgatada). Criou o Hephiro Pets para falar sobre criação responsável de pets com linguagem real — sem textão de manual e sem julgamento.
Pesquiso muito. Erra às vezes. Conta tudo aqui.
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Publicado em fevereiro de 2026 | Hephiro Pets