Por Mariana Silva | Hephiro Pets | Março 2026
Erliquiose em cães foi o diagnóstico que a minha colega Priscila recebeu numa tarde de novembro de 2025 — após dois dias vendo a Pipoca piorar e achando que era só uma gripe.
A Pipoca é uma beagle de quatro anos, vacinada em dia, bem alimentada, adotada de um criador responsável. Mora num sobrado com quintal em Aparecida de Goiânia. No início de novembro, Priscila notou que ela estava apática, recusando comida e com temperatura alta. No segundo dia, apareceu sangramento espontâneo no nariz.
Na emergência veterinária, o hemograma confirmou: plaquetas em queda livre, sinal clássico de erliquiose em cães em fase aguda. A Dra. Renata iniciou o tratamento imediatamente.
Por isso escrevi esse guia. A doença é transmitida por carrapato, é endêmica no Brasil e é especialmente comum no Centro-Oeste e Sudeste. E a maioria dos tutores só descobre o que é erliquiose no momento do diagnóstico — quando já perdeu tempo precioso.
O Que Você Vai Encontrar Neste Guia
- Erliquiose em cães: o que é e como o carrapato transmite.
- Fases da doença e sintomas em cada estágio
- Diagnóstico: quais exames confirmam a erliquiose
- Tratamento: protocolo atual e o que esperar
- Sequelas e prognóstico com e sem tratamento precoce
- Protocolo de prevenção que funciona na prática
1. Erliquiose em cães: o que é e como a transmissão acontece.
O parasita e o Vetor
Erliquiose em cães é uma doença infecciosa causada pela bactéria Ehrlichia canis, transmitida pela picada do carrapato marrom do cão — o Rhipicephalus sanguineus, o carrapato mais comum em cães domésticos no Brasil urbano.
O carrapato se contamina ao se alimentar de cão infectado e transmite a bactéria para outros animais nas picadas seguintes. Por isso, cão com carrapato em área urbana de Goiânia, São Paulo ou qualquer cidade de clima quente está em risco real de erliquiose — não só cão rural ou de mata.
Além disso, a transmissão não é imediata. O carrapato precisa estar fixado por pelo menos 24 a 48 horas para transmitir a bactéria em quantidade suficiente para causar doença. Contudo, isso não significa que a inspeção diária do cão resolve o problema — carrapato em local de difícil visualização (orelha interna, entre os dedos, virilha) passa despercebido com facilidade.
Por que o Centro-Oeste é área de risco?
O clima quente e a presença de quintais com vegetação fazem do Centro-Oeste uma das regiões de maior incidência de erliquiose canina no Brasil. Além disso, cão que frequenta parques, áreas de mata ou tem contato com outros cães em ambiente externo tem risco elevado de infestação por carrapato — e consequentemente de erliquiose.
Por isso, tutor de Goiânia que nunca utilizou antipulgas e carrapatos precisa rever esse protocolo agora, não depois do diagnóstico.
2. Erliquiose em cães: as três fases da Doença
Fase Aguda — Janela de Oportunidade
A erliquiose em cães tem três fases clínicas com progressão bem documentada. A fase aguda é a janela de maior chance de tratamento eficaz — e a que os tutores mais frequentemente perdem por confundir os sintomas com condição menos grave.
A fase aguda começa entre 1 e 3 semanas após a picada infectante e dura de 2 a 4 semanas sem tratamento. Os sintomas característicos são febre (39,5 °C a 41 °C), letargia intensa, perda de apetite, linfonodos aumentados e, em muitos casos, descarga nasal e ocular.
Além disso, a queda de plaquetas — trombocitopenia — começa nessa fase e é o marcador laboratorial mais consistente da doença. Por isso, hemograma com contagem de plaquetas é o primeiro exame a ser solicitado quando esses sinais aparecem.
Fase Subclínica — O Silêncio Enganoso
Se o animal não é tratado na fase aguda, a doença entra em fase subclínica — período em que os sintomas desaparecem aparentemente, mas a bactéria continua presente no organismo, multiplicando-se nos monócitos.
Contudo, esse silêncio é enganoso e perigoso. A fase subclínica pode durar meses ou anos, e o animal parece saudável enquanto a doença avança internamente. Além disso, cão em fase subclínica não tratada evolui inevitavelmente para a fase crônica — a mais grave e de pior prognóstico.
Por isso, diagnóstico de erliquiose em cão assintomático — encontrado em exame de rotina — ainda deve ser tratado imediatamente.
Fase Crônica — A Mais Grave
A fase crônica da erliquiose em cães é caracterizada por comprometimento grave da medula óssea, pancitopenia severa (queda de todas as células sanguíneas), sangramento espontâneo em múltiplos locais, insuficiência renal, uveíte e comprometimento neurológico em casos avançados.
O prognóstico na fase crônica é reservado a grave — mesmo com tratamento adequado, a recuperação completa pode não acontecer. Dessa forma, cão que chega à fase crônica porque o diagnóstico foi tardio tem resultado muito diferente de cão tratado na fase aguda.
A Pipoca foi diagnosticada na fase aguda. Esse detalhe fez toda a diferença no desfecho dela.

“A inspeção do Bode após cada passeio: orelha, entre os dedos, virilha, pescoço. Dois minutos por dia. É o protocolo mais simples de prevenção que existe.” –>
3. Erliquiose em cães: Sintomas Que Exigem Atendimento Imediato
Os Sinais Que Não Podem Esperar
Os sintomas da erliquiose em cães variam em intensidade e combinação, mas alguns sinais específicos precisam de atendimento veterinário no mesmo dia — não na próxima semana.
Febre persistente acima de 39,5 °C por mais de 24 horas em cão sem causa aparente é sinal de alerta real. Além disso, febre alta combinada com letargia intensa e recusa de alimento em animal que estava bem dias antes aponta para processo infeccioso agudo que precisa de investigação imediata.
Sangramento espontâneo é o sinal mais urgente. Epistaxe (sangramento nasal sem trauma), petéquias (pontinhos vermelhos na pele ou nas gengivas), sangue na urina ou nas fezes, ou hematoma sem impacto — qualquer um desses sinais em cão com outros sintomas de doença sistêmica é emergência veterinária.
Palidez de gengivas indica anemia ou queda grave de plaquetas. Por isso, verificar a cor das gengivas do cão é gesto que todo tutor deve aprender: gengiva rósea é normal, gengiva pálida ou esbranquiçada é emergência.
Olhos vermelhos ou com secreção súbita combinados com febre e letargia podem indicar uveíte associada à erliquiose. Contudo, olho vermelho isolado tem múltiplas causas — é a combinação com outros sinais que aponta para erliquiose.
O que fazer antes de chegar à Clínica
Registre a temperatura retal do animal se tiver termômetro em casa. Anote quando os sintomas começaram e qualquer episódio de contato com carrapato ou frequência em parques. Além disso, leve o histórico de antipulgas e carrapatos — a Dra. Renata sempre pergunta qual produto foi utilizado e com qual frequência.
Por outro lado, não administre anti-inflamatório ou antibiótico por conta própria antes da consulta — pode mascarar sintomas e dificultar o diagnóstico.
4. Erliquiose em cães: diagnóstico e Tratamento
Como o Diagnóstico É Feito.
O diagnóstico da erliquiose em cães combina avaliação clínica com exames laboratoriais específicos. Por isso, o veterinário não diagnostica só pelos sintomas — os exames são parte essencial do processo.
Hemograma completo: o primeiro exame solicitado. Trombocitopenia (plaquetas abaixo de 150.000/μL) é o achado mais consistente na fase aguda. Além disso, anemia e leucopenia (queda de glóbulos brancos) aparecem em fases mais avançadas.
Sorologia (RIFI ou ELISA para Ehrlichia): detecta anticorpos contra a bactéria no sangue. Contudo, resultado negativo precoce não exclui a doença — o organismo leva tempo para produzir anticorpos em quantidade detectável. Por isso, sorologia negativa em animal sintomático com hemograma alterado não descarta erliquiose.
PCR para Ehrlichia: detecta o DNA da bactéria diretamente e é mais sensível que a sorologia nas fases iniciais. Além disso, confirma o diagnóstico mesmo antes da soroconversão.
Perfil bioquímico: avalia função renal e hepática — órgãos frequentemente comprometidos na doença avançada e essenciais para guiar o tratamento.
Tratamento: Protocolo Atual
O tratamento da erliquiose em cães tem protocolo bem estabelecido e alta eficácia quando iniciado na fase aguda.
Doxiciclina é o antibiótico de escolha — administrado por via oral por 28 dias consecutivos em dose calculada por peso corporal. A melhora clínica começa geralmente nos primeiros três a cinco dias. Contudo, a melhora precoce não significa cura — interromper o tratamento antes dos 28 dias é causa comum de recaída.
Tratamento de suporte inclui, dependendo do estado clínico: transfusão de sangue em casos de anemia grave, suporte renal, hepatoprotetor e controle de infecções secundárias. Além disso, cão com plaquetas muito baixas precisa de restrição de atividade física durante o tratamento para reduzir risco de sangramento interno.
Controle laboratorial: hemograma a cada 10 a 14 dias durante o tratamento para monitorar a recuperação das plaquetas. Por isso, “tomou o antibiótico e ficou bem” não é suficiente — exame de controle confirma a resposta ao tratamento.
A Pipoca completou os 28 dias de doxiciclina. Plaquetas normalizaram no décimo quarto dia. Hemograma de controle ao final do tratamento: limpo.

“A Priscila marcou cada dia do tratamento no calendário. Vinte e oito dias. Sem falhar uma dose. É exatamente assim que a doxiciclina funciona.” –>
5. Erliquiose em cães: sequelas e prognóstico.
O que determina o resultado.
O prognóstico da erliquiose em cães depende fundamentalmente de um fator: o estágio no qual a doença foi diagnosticada e tratada.
Cão diagnosticado e tratado na fase aguda tem taxa de recuperação completa alta — a maioria dos animais responde bem à doxiciclina e não desenvolve sequelas. Por outro lado, cão que chega à fase crônica tem prognóstico muito mais reservado, mesmo com tratamento correto.
Contudo, cão em fase crônica não é necessariamente sentença. Alguns animais respondem ao tratamento mesmo em estágio avançado, especialmente se o comprometimento da medula não for irreversível. Além disso, tratamento de suporte adequado — transfusão, manejo renal — pode estabilizar o quadro e permitir qualidade de vida razoável.
Sequelas Possíveis
Cães que sobrevivem à fase crônica podem desenvolver sequelas permanentes: insuficiência renal crônica, comprometimento ocular com perda parcial de visão e imunossupressão que predispõe a infecções recorrentes.
Por isso, acompanhamento veterinário semestral em cão com histórico de erliquiose crônica é necessidade permanente — não precaução temporária. Além disso, recaída após tratamento aparentemente bem-sucedido existe e é mais comum em cães que não completaram os 28 dias.
6. Erliquiose em cães: Protocolo de Prevenção Completo
O que previne de Verdade
A prevenção da erliquiose em cães depende de uma única medida principal: controle eficaz de carrapatos. Contudo, “utilizar algum produto” não é o mesmo que “controlar de verdade” — o produto, a frequência e a consistência fazem toda a diferença.
Antipulgas e carrapatos sistêmicos ou tópicos eficazes: pipetas com fluralaner, sarolaner ou afoxolaner têm eficácia comprovada contra carrapatos e duração de um a três meses, dependendo do produto. Além disso, coleiras com deltametrina ou fluralaner têm eficácia de até oito meses. Por isso, produto correto indicado pelo veterinário — não o mais barato do pet shop — é o centro do protocolo.
Consistência sem falha: a maioria dos casos de erliquiose em cães “com proteção” acontece porque o tutor atrasou a reposição do produto por alguns dias ou semanas. Carrapato se fixa exatamente nesse intervalo. Dessa forma, data de reposição no calendário com alarme não é preciosismo — é o que fecha o protocolo.
Inspeção diária após passeios: verificar orelhas, entre os dedos, virilha, pescoço e região perirretal após passeios em parques ou áreas com grama. Além disso, carrapato encontrado e removido antes de 24 horas de fixação reduz significativamente o risco de transmissão.
Remoção e Ambiente — Complementos Essenciais
Remoção correta de carrapato: pinça fina o mais próximo possível da pele, movimento firme e vertical sem torcer. Nunca utilizar vaselina, álcool, fósforo ou esmalte — esses métodos estressam o carrapato e aumentam o risco de regurgitação de fluido infectado. Por outro lado, dúvida sobre a remoção: ir ao pet shop ou veterinário é mais seguro.
Ambiente controlado: grama cortada regularmente, remoção de folhas secas em decomposição e evitar contato com animais desconhecidos sem controle de carrapato reduzem a exposição. Contudo, em área urbana de Goiânia, controle ambiental total é impossível — por isso, proteção no próprio animal é o pilar principal.
Leituras Complementares para o Protocolo Completo
Para completar o protocolo de saúde preventiva, leia o post sobre Vacinação de Pets: O Que Você Precisa Saber. Além disso, o Guia Completo de Cuidados com Pets cobre a rotina preventiva completa — da vermifugação ao controle de ectoparasitas.

“A Pipoca hoje. Mesma Beagle, mesma energia. O diagnóstico foi na fase aguda, o tratamento foi completo, e o carrapato agora tem proteção mensal sem atraso.” –>
O que a Priscila aprendeu com a pipoca.
Perguntei à Priscila, quatro meses depois do diagnóstico da Pipoca, o que ela diria para outro tutor sobre erliquiose em caes.
Ela ficou séria por um segundo e disse: “Diria que carrapato não é só incômodo. É risco real de doença grave. E que produto antipulgas e carrapatos não é opcional — é parte do cuidado básico, igual à vacina.”
Depois, olhou para a Pipoca correndo no quintal e completou: “Eu utilizava o produto, mas sempre atrasava uns dias quando acabava. Nunca mais. Coloco alarme no celular um dia antes de vencer. Não existe mais janela.”
A erliquiose em cães é grave, é tratável quando diagnosticada cedo e é quase completamente prevenível com protocolo de carrapato consistente. Contudo, “quase completamente” exige consistência real — não produto na gaveta que utiliza quando lembra.
A Pipoca está bem. E o protocolo da Priscila não tem mais lacunas.
⚠️ Aviso importante: Não sou veterinária. Este guia é baseado em pesquisa e na experiência real da minha colega Priscila com a Pipoca aqui em Goiânia. Não substitui avaliação profissional. Para diagnóstico, estadiamento e tratamento de erliquiose, consulte sempre um veterinário — a doxiciclina precisa de prescrição e de dose calculada por peso.
Sobre a Autora
Mariana Silva mora em Goiânia-GO e é tutora do Spyke (dragão-barbudo), Luna e Sol (geckos-leopardo) e Jade (jabuti piranga resgatada). Criou o Hephiro Pets para falar sobre criação responsável de pets com linguagem real, sem textão de manual e sem julgamento.
Pesquiso muito. Erra às vezes. Conta tudo aqui.
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Publicado em março de 2026 | Hephiro Pets